O país pelo qual os nossos avós lutaram
Portugal gosta de falar dos seus jovens. Fala-se de oportunidades, de talento e de futuro. Mas há uma pergunta que este discurso raramente enfrenta: de que servem as oportunidades quando trabalhar deixou de chegar para viver com dignidade?
Os números ajudam a perceber o problema. Segundo o Eurostat, os jovens portugueses saíram de casa dos pais, em 2024, com 28,9 anos em média, quase três anos depois da média europeia, de 26,2. Um estudo do Banco de Portugal divulgado em março estimava que as famílias com rendimento mediano gastam cerca de 48% do que ganham com a habitação e que os preços das casas subiram cerca de 140% entre 2016 e 2025. Para quem está a começar a vida, estes valores traduzem-se em adiar a independência, a vida a dois e os filhos.
Um direito que se tornou privilégio
Há jovens que acumulam dois empregos, fazem horas extraordinárias e abdicam dos fins de semana para conseguir pagar as contas. Outros poupam tudo o que podem, na esperança de um dia comprarem casa, e veem esse dia afastar-se à medida que as rendas, a alimentação e o combustível consomem o salário. Sair de casa dos pais, que para as gerações anteriores era uma etapa natural, tornou-se para muitos um luxo.
O direito à habitação, consagrado na Constituição, está a transformar-se num privilégio de quem tem maior capacidade financeira.
Parte desta pressão vem de um mercado em que a oferta é escassa e a procura chega também de fora. Portugal atrai estrangeiros, reformados e pessoas com rendimentos obtidos noutros países, e não há nada de errado nisso. O problema não está na nacionalidade de quem compra ou arrenda. Está num mercado onde quem ganha um salário português compete, muitas vezes em desvantagem, com rendimentos muito superiores, sem que existam condições que garantam a quem trabalha no país o acesso a uma casa compatível com o que ganha.
A promessa das gerações anteriores
É difícil olhar para este cenário sem pensar em quem veio antes. Houve famílias que perderam filhos na guerra, que trabalharam de sol a sol, que emigraram para sobreviver e que lutaram pela liberdade e pelos direitos de que hoje se usufrui. Fizeram-no, em grande parte, na convicção de que os filhos e os netos teriam uma vida melhor.
Não se trata de romantizar o passado, que teve dificuldades que não podem ser esquecidas, mas de reconhecer o contraste. Depois de tantos sacrifícios, uma das maiores preocupações de uma geração é saber se terá condições para viver no seu próprio país. Muitos desses netos fazem hoje as malas para procurar noutro lugar o futuro que aqui não encontram.
O que está realmente em causa
As ambições desta geração são modestas. A maioria não procura moradias com piscina nem apartamentos no centro de Lisboa. Procura um espaço pequeno onde descansar depois do trabalho, construir uma relação e ter privacidade. Procura poder poupar, tomar decisões sem medo das despesas do mês seguinte e acreditar que o esforço compensa.
Dizer aos jovens que trabalhem mais, poupem mais ou sejam mais responsáveis não resolve um problema que é estrutural. A responsabilidade individual conta, mas não substitui o que só as políticas públicas podem fazer: mais habitação acessível, rendas compatíveis com os rendimentos e condições reais para que os jovens conquistem a sua independência. Portugal não tem de escolher entre acolher quem vem de fora e dar oportunidades a quem cá nasceu. Tem de ser capaz de fazer as duas coisas, com responsabilidade e com justiça.
Um país não se constrói apenas com edifícios, investimento e turismo. Constrói-se com pessoas, com famílias e com a possibilidade de cada geração viver melhor do que a anterior. Pedir aos jovens que fiquem por amor à pátria, sem lhes dar condições para viverem nela, é pedir demasiado. O amor a um país não paga uma renda, e o orgulho nas raízes não substitui um salário digno.
A habitação é, por isso, uma questão de dignidade e de justiça entre gerações, e não apenas de economia. As gerações anteriores lutaram por um Portugal onde os netos pudessem ficar. Cabe a quem decide hoje garantir que essa promessa não fica pelo caminho.