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Quando trabalhar não chega para viver com dignidade

Durante décadas, o trabalho foi apresentado como o caminho mais seguro para a estabilidade. Estudar, conseguir um emprego, cumprir as responsabilidades e receber um salário eram as etapas de uma vida que se esperava previsível. Para uma parte crescente da população, essa sequência já não produz o resultado prometido.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que, em 2024, 8,6% da população empregada estava em risco de pobreza. São pessoas que trabalham a tempo inteiro, cumprem horários e recebem o salário ao fim do mês, mas continuam a fazer contas para pagar a renda, a alimentação e a eletricidade. Para elas, o problema não está na falta de trabalho nem de esforço, mas na dificuldade crescente em transformar esse trabalho numa vida financeiramente estável.

Quando o salário não acompanha o custo de vida

O salário mínimo subiu este ano para 920 euros brutos, mas a habitação, a alimentação, os transportes e a energia pesam cada vez mais nos orçamentos familiares. Segundo o Banco de Portugal, as famílias com rendimento mediano gastam cerca de 48% do que ganham com a habitação. Quando os salários não acompanham esta evolução, trabalhar deixa de ser sinónimo de estabilidade.

Para muitas famílias, o fim do mês tornou-se um exercício permanente de gestão, em que se decide que despesas podem ser adiadas e a que necessidades é possível renunciar. Uma avaria no carro, uma consulta médica ou uma fatura acima do habitual bastam para desequilibrar o orçamento. Sem margem para imprevistos, planear o futuro torna-se quase impossível.

Uma precariedade que nem sempre se vê

As dificuldades económicas continuam a ser associadas, sobretudo, ao desemprego. Existe, porém, uma realidade menos visível, a de quem trabalha e permanece numa situação de vulnerabilidade financeira. Contratos instáveis, salários baixos, horários imprevisíveis e a ausência de perspetivas de progressão alimentam uma sensação permanente de insegurança. Mesmo com emprego, muitas pessoas não conseguem poupar, investir na sua formação ou fazer planos a longo prazo.

Uma vida em que o rendimento chega apenas para as despesas imediatas dificilmente pode ser considerada estável. A estabilidade deveria significar mais do que um contrato e um salário regular. Deveria significar a possibilidade de viver sem o receio constante de não conseguir pagar as contas do mês seguinte.

Trabalhar para viver, não apenas para sobreviver

O trabalho tem um valor que vai muito além do rendimento. É fonte de autonomia, de participação na sociedade, de desenvolvimento pessoal e de reconhecimento. Quando uma pessoa dedica grande parte do seu tempo a trabalhar e, ainda assim, não consegue assegurar condições de vida dignas, são as estruturas que sustentam essa realidade que precisam de ser questionadas.

Não se trata de defender que todos devem ter o mesmo percurso ou as mesmas condições económicas, mas de reconhecer que o acesso a uma vida digna não pode depender apenas da capacidade de cada um para suportar dificuldades. O esforço individual conta, mas não resolve, por si só, problemas estruturais como os baixos salários, o acesso à habitação ou a desigualdade de oportunidades. Uma sociedade que valoriza o trabalho tem também de se preocupar com as condições em que ele é prestado e com a qualidade de vida que permite alcançar.

Uma questão de modelo de sociedade

Talvez seja tempo de repensar a forma como se mede a estabilidade económica. Ter emprego é importante, mas não pode ser considerado suficiente quando esse emprego não permite satisfazer necessidades básicas, enfrentar imprevistos ou construir um futuro com alguma segurança.

Viver com dignidade não é viver com luxos. É conseguir pagar as despesas essenciais, ter uma habitação adequada, cuidar da saúde, ter algum tempo de descanso e não viver permanentemente condicionado pela falta de dinheiro. O trabalho deve ser um instrumento de autonomia e de construção de oportunidades, e não uma condição que mantém as pessoas ocupadas sem lhes dar meios para viver plenamente.

Esta reflexão não diz respeito apenas a quem enfrenta dificuldades. Diz respeito ao modelo de sociedade que se está a construir e às condições que se aceitam como normais para quem, todos os dias, contribui para o seu funcionamento.